AS ORDENS RELIGIOSAS
Além de muito prestigiada,
a Igreja Católica era a guardiã da sociedade patriarcal
e religiosa praticada no Brasil colônia e império.
Após 40 anos da fundação a cidade tinha
cerca de 80 casas, 3 igrejas e 3 conventos o que, pela proporção,
dá par se notar o valor da Igreja durante a colonização.
Aliás, alguns pesquisadores aventam o fato de a Coroa
Portuguesa ter usado a Igreja como a mais importante ferramenta
utilizada em seus interesses na "terra brasilis". Até porque
o "padroado" favorecia a Coroa Imperial: nas terras
descobertas o Rei podia autorizar ou obstruir o trabalho dos
religiosos como bem lhe prouvesse. Citando o Pe. Manoel Medeiros
(IHGP): "A igreja católica no Brasil, portanto,
na Paraíba, tinha dois governos. Um canônico, com
o Papa e os Bispos à frente, e outro imperial, com os
reis de Portugal e depois do Brasil, que
também era o Grão Mestre da Ordem Militar de Cristo,[1] no
seu comando. Quem comandava a Igreja era o rei de Portugal, era
o rei do Brasil (Reino Unido) e era o Imperador do Brasil. Isso
durou até a República, quando houve a separação
da Igreja do Estado. Foi um Deus nos acuda, mas foi um grande
benefício para a Igreja, por que ela se sentiu livre".
As ordens religiosas dispunham de
muitas propriedades, engenhos e escravos. O Tribunal do Santo
Ofícío, durante a Inquisição, autorizou
em 1595 a primeira visitação na Paraíba.
Dezenas de pessoas foram penalizadas. O processo foi tão
rigoroso que chegou a confiscar os bens do Padre João
Vaz de Salem, homem muito rico, influente e também vigário
da freguesia de Nossa Senhora das Neves. A partir do século
XVIII as famílias mais abastadas e os representantes da
classe dominante aprenderiam que o fato de se ter um padre na
família era fator muito importante nas disputas pelo poder.
Os jesuítas foram
os primeiros missionários que chegaram à Capitania
da Paraíba. No final de 1588 iniciaram a construção
de um convento e uma igreja dedicados
a Nossa Senhora de Nazaré do Almagre[2].
Seus interesses conflitaram com os interesses da Coroa Portuguesa
e foram expulsos da capitania em 1593. Em 1708 os jesuítas
voltaram à Paraíba fundando um colégio onde
ensinavam latim, filosofia e letras. Em 1745 o Padre Gabriel
Malagrida aqui instalou o primeiro seminário para formação
de padres diocesanos nas terras brasileiras. Contudo, em 1773
a congregação foi novamente expulsa da colônia
em função da política de perseguição
do Marquês de Pombal, ministro plenipotenciário
do reinado de D. José I. O prédio do seminário
passou a ser residência oficial do Ouvidor-Geral da capitania
com a permissão do Papa Clemente XIV. Saiba
mais sobre os jesuítas.
Os franciscanos estabeleceram-se
na Capitania da Paraíba em 1589, convidados pelo Capitão-Mor
Frutuoso Barbosa. Iniciaram, no mesmo ano, a construção
do Convento de Santo Antônio, em taipa (madeira entrelaçada
e barro), visando infraestruturar a Ordem para a catequese dos
indígenas, o que fariam sob disputa ferrenha entre jesuítas
e beneditinos. Retomaram melhorias no prédio do convento
(usando pedra e cal) e iniciaram a construção da
igreja de Santo Antônio (erronea e normalmente chamada
igreja de São Francisco) que faz parte do conjunto hoje
denominado "Centro Cultural São Francisco",
considerado uma verdadeira jóia da arquitetura barroca
nas Américas. O Centro Cultural é tombado pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional-IPHAN. Durante a ocupação holandesa o
convento foi utilizado como residência do governador e
casa de apoio para militares de altas patentes. Saiba
mais sobre os franciscanos.
Os beneditinos após
criarem abadias em Salvador (1581), Rio de Janeiro (1586) e Olinda
(1590), chegaram à cidade de Filipéia de Nossa
Senhora das Neves em 1596 e deram início às obras
do Mosteiro de São Bento. Em 1721 iniciaram a construção
da igreja que fica ao lado do convento. O conjunto tem estilo
sóbrio mas harmonioso e imponente. O mosteiro foi desativado
em 1921 e seu prédio tem sido locado para o funcionamento
de instituições educativas. O Conjunto Beneditino é tombado
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional e fica na Rua General Osório, perto da catedral. Saiba
mais sobre os beneditinos.
Os carmelitas aqui se instalaram
em 1588. Construíram um convento, a igreja de Nossa Senhora
do Carmo e a capela de Santa Tereza D'Ávila, formando
o Conjunto Carmelita em estilo barroco-rococó situado
na parte mais alta da cidade. Num promontório ao largo
da fóz do Rio Paraíba (hoje município de
Lucena) contruíram a igreja de Nossa Senhora da Guia e
um hospício, denominação dada aos hospitais
religiosos no Brasil colônia. A Igreja da Guia é classificada
como peça exemplar da arquitetura barroco-tropical em
vista dos maravilhosos entalhes em
pedra calcárea representando os frutos e a flora da nova
terra. Não se tem muito sobre a Ordem porque durante o
domínio holandês (1634 a 1654) os frades tentaram
proteger seus documentos enterrando-os. Anos depois, grande parte
dos documentos não foi encontrada e alguns estavam impróprios
para a leitura. Saiba
mais sobre os camelitas.
A Igreja Cristã Reformada (Igreja
Protestante Calvinista nos Países Baixos) tentou se estabelecer
no Brasil-colônia no Rio de Janeiro (1557-1558) através
dos franceses e depois em Salvador (1624-1625) com os holandeses.
Como uns e outros foram derrotados nessas capitanias, somente
a partir de 1630, com a ocupação holandesa no nordeste
do Brasil, houve condição para que
fossem criadas suas congregações, estruturadas
sob o Sínodo do Brasil[3].
Durante a ocupação holandesa (1630-1654) o
nordeste chegou a ter 22 igrejas protestantes. Apesar de proclamarem
a liberdade religiosa[4] para
os vencidos, na prática existia apenas tolerância,
a exemplo do que, em 1638, foram proibidas as procissões
e todas as manifestações externas de culto católico,
assim como a proibição do casamento católico
sem a licença da Igreja Reformada, a bênção
dos engenhos por padres e a extrema-unção, por
padre, dada a portugueses condenados à morte. Cf. Mário
Neme em "Fórmulas políticas no Brasil
holandês".
A Igreja Cristã Reformada visou, também, a catequese
dos índios, aproveitando o trabalho feito pelos padres católicos
em aldeiamentos já existentes. Em 1939 existiam 21 aldeiamentos
no nordeste holandês, dos quais, 7 na Paraíba. A evangelização
indígena contava fortemente com o apoio do Estados Gerais
dos Países Baixos, porquanto havia um trabalho paralelo
para arregimentar guerreiros contra as tropas portuguesas.
AS IGREJAS
A Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre é uma
estrutura de estilo não muito bem definido erguida pelos
jesuítas, entre 1588 e 1591, durante os trabalhos de
catequização. Os registros documentais revelam
pouco da história desse monumento mas, nota-se que também
servia como posto de observação entre o mar e
o rio. Suas ruínas encontram-se entre
a praia de Intermares e a praia do Poço, em terreno
de propriedade particular que sofre ação do Ministério
Público e do Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico do Estado da Paraíba, visando regulamentar
o uso dos terrenos no entorno das ruínas.
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Igreja da Misericórdia
Foi edificada em 1612 sobre uma primitiva capela edificada no século
XVI pelo rico proprietário Duarte Gomes da Silveira. Sofreu
várias remodelações mas as paredes externas
mantêm o estilo. Foi matriz até 1671, sendo a mais
antiga das igrejas em atividade na Paraíba. É um
monumento legado pela Santa Casa de Misericórdia e importantíssimo
no quadro do patrimônio histórico e artístico
paraibano. Fica na esquina da Rua Duque de Caxias com o Viaduto
Terceiro Neto.
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Conjunto Carmelita
A Igreja de N.S. do Carmo e Capela de Santa Tereza D'Ávila
formam um belíssimo conjunto arquitetônico. No século
XVIII o convento que aí existia foi demolido para a construção
da residência do bispo D. Adauto de Miranda Henriques. Situa-se
na Praça D. Adauto, no início da Rua Visconde de
Pelotas.
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Centro Cultural São Francisco
Compreende o Convento e a Igreja de Santo Antônio[5] com
a fonte e o relógio de sol; a Capela de São Francisco construída
na lateral; cruzeiro frontal em pedra calcárea e adro
com passagens da Via Sacra adornado com azulejos portugueses
do século XVIII. O conjunto é tombado pelo Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
como relíquia da arquitetura barroca no Brasil. Fica na
confluência da Rua D. Ulrico com a Duque de Caxias. Ver
acesso principal
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Conjunto Beneditino
Após se instalarem em Salvador (1581), Rio de Janeiro (1586)
e Olinda (1590) os beneditinos chegaram à cidade de Filipéia
em 1596 e iniciaram as obras do Mosteiro de São Bento, também
conhecido como Mosteiro do Calvário (Nóbrega,1982).
Em 1721 iniciaram a construção da igreja que está ao
lado do convento. O conjunto tem arquitetura de linhas sóbrias
e harmoniosas. O mosteiro foi desativado em 1921 e sua área
tem sido alugada para instituições de ensino. O Conjunto
Beneditino fica na Rua General Osório, perto da catedral.
NOTAS
[1]
A Ordem Militar de Cristo foi a sucessora portuguesa da Ordem dos
Templários que formou verdadeiros monges-soldados, acumulou
muita riqueza, tornou-se poderosa e atraiu a inveja de muitos reis,
sendo dissolvida pelo papa Clemente V. # A Ordem de Cristo foi
criada com autorização papal em 1319 por D. Diniz,
rei de Portugal. Muito rica e poderosa, financiou várias
expedições marítimas dos portugueses, inclusive
a que trouxe Cabral ao Brasil. Seu símbolo (uma cruz grega
branca sobreposta a uma cruz patée vermelha) estava pintado
em todos os barcos da esquadra. # O rei detinha o título
de Grão Mestre da Ordem Militar de Cristo, cargo que implicava
no controle das finanças de tudo o que se arrecadava em
nome da Igreja com a denominação de dízimo.
[2]
Do árabe al-magrâ: barro vermelho muito utilizado
nas construções. # Almagre era o antigo nome da faixa
litorânea que compreende atualmente as praias de Intermares
e Poço, em vista da barreira de corais ali existente. A
palavra era usada pelos colonos espanhóis e portugueses
referindo-se às pedras avermelhadas encontradas nos bancos
de corais da costa do nordeste do Brasil. # Os indígenas
chamavam essa pedra de itapitanga/tapitanga, sendo, desde aqueles
tempos, um ponto de referência para a pesca, pois em volta
dela sempre há peixes se alimentando. # Não raro
se vê, ainda, esse tipo de pedra usada como contra-piso ou
complemento de parede nas palhoças e habitações
de aldeias pesqueiras no litoral da Paraíba. Recentemente,
em visita ao Santuário de N.S. da Guia (Lucena), constatei
o uso da tapitanga nos alicerces de paredes e calçadas que
circundam a igreja.
[3]
A Igreja Cristã Reformada "era organizada sobre
o trabalho de capelania dos Dominees (Pastores), organizando-se
o seu Presbitério na Classe do Brasil (chamada a partir
de 1640 de Classe Brasiliana) ou Sínodo do Brasil. A Igreja
Reformada no Brasil holandês atingiu alto grau de organização;
contudo o sistema de organização não funcionou
como esperado. As igrejas locais não aceitavam o domínio
político em seus concílios, sem falar nas imensas
dimensões do território, que inviabilizavam as reuniões
periódicas dos líderes reformados, dificultando o
funcionamento do Presbitério organizado." cf trabalho
do Prof. João Henrique dos Santos, da Universidade Gama
Filho.
[4]
A circular de 25 de dezembro de 1634, distribuída pelos
invasores aos habitantes da cidade de Filipéia foi a base
do Pacto da Paraíba, acordo afiançado pelo Governo
de Recife, em nome dos Estados Gerais, e posteriormente estendido
por Maurício de Nassau às demais capitanias sob sua
administração. Entre outros parágrafos, dizia: “Em
primeiro lugar, nós vos deixaremos livre o exercício
de consciência do mesmo modo como o tendes usado antes, freqüentando
as igrejas e praticando os sacrifícios divinos, conforme
os seus ritos e preceitos, não roubaremos as vossas igrejas
nem deixaremos roubar, nem ofenderemos as imagens nem os padres
nos atos religiosos ou fora deles." cf Mário Neme,
1971.
[5]
- A Igreja de Santo Antônio, no início do século
XX, sofreu reformas onde cobriram com tinta azul as cenas dos milagres
de Santo Antônio e realçaram o medalhão central
com a imagem de São Francisco. O equívoco só foi
corrigido com a restauração feita pelo IPHAN em 1989
mas, sendo a igreja uma propriedade da Ordem Franciscana, efetivamente
as pessoas continuaram a se referir à igreja como de São
Francisco. A Igreja de Santo Antônio dispõe de duas
capelas ao lado da nave central: a pequeníssima Capela de
São Benedito ,
utilizada na época apenas por escravos (um por vez) do convento
e a Capela Dourada ,
assim chamada por suas imagens e adornos em madeira com cobertura
em ouro.
- A Capela de São Francisco (construída
ao lado, com acesso pela igreja de Santo Antônio) é menos
rica em detalhes e frequentemente locada para recitais e casamentos.
- Todo esse conjunto é denominado Centro Cultural São
Francisco e pode ser melhor entendido através deste "layout" que
fiz sobre foto.
---
Para saber mais sobre o patrimônio
artístico-cultural legado aos paraibanos pelas ordens
religiosas, leia
aqui um ótimo artigo da professora Carla Mary
Oliveira sobre a arte barroca na Paraíba.
---
BIBLIOGRAFIA:
BARBOSA,
Cônego Florentino - O Convento de São Francisco
Rev.Inst.Hist.Geográfico Paraybano, João Pessoa,
IHGP, n.8,1935
MELLO, J.A. Gonsalves de - Fontes para a história
do Brasil holandês
Recife.MinC/Fundação Pró-Memória.1985
NEME, Mário - Fórmulas políticas
no Brasil holandês
S. Paulo.DIFEL.1971
OLIVEIRA, Carla Mary - Arte, Religião
e Conquista: os sistemas simbólicos do poder e o Barroco
na Paraíba
João Pessoa.PPGS-UFPB.1999
SANTOS, João Henrique - Aquela judia da Paraíba
e o anti-semitismo nas atas da Igreja Cristã Reformada no
Brasil holandês (1630-1654)
Mestrando em História Social na UFRJ
SCHALKWIJK, F.L. - A Igreja Cristã Reformada
no Brasil Holandês
Rev. Inst. Arq., Hist. e Geog. de Pernambuco, vol. LVIII: 145-284

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