A CONQUISTA DO TERRITÓRIO
À época do descobrimento do Brasil a Coroa Portuguesa
mantinha um grande e rentável comércio
de especiarias com as Índias. Esse comércio desmotivou
Portugal a explorar economicamente as riquezas brasileiras até a
metade do século
XVI, porquanto aqui não encontraram, de início, nem
o ouro nem a prata tão valiosos no mercado europeu. Nesse
período,
piratas navegantes franceses frequentavam o nordeste
brasileiro e se davam muito bem com os nativos:
trocavam quinquilharias pelo pau-brasil
de cuja
casca extraiam um pigmento vermelho muito utilizado para colorir
tecidos em toda a Europa.
No início de 1574 a jovem filha
de Iniguaçu, chefe potiguara, foi aprisionada pelo
proprietário do engenho Tracunhaém na capitania de
Itamaracá, hoje pertencente ao município
de Goiana, em Pernambuco. Os potiguaras,
por vingança e insuflados pelos franceses, atacaram e incendiaram
o engenho, matando todos os moradores, ato que ficou conhecido
como "a
chacina de Tracunhaém".
O incidente urgiu Portugal para a necessidade de maior controle da região,
visando extinguir a presença de franceses em nosso litoral e evitar,
no futuro, qualquer possibilidade de ataque indígena à Vila de
Olinda
e engenhos da região. Em resumo, tornou-se urgente garantir o monopólio
do açúcar e o poder econômico da Capitania de Pernambuco,
principal centro produtivo da colônia,
como também iniciar o avanço sobre as
terras ao norte.
Assim,
no mesmo ano de 1574, o jovem Rei D. Sebastião resolveu desmembrar a
Capitania de Itamaracá, criando a Capitania Real da Paraíba a
partir de Igarassu, no sentido norte, até a Baía da Traição.
Ocorre que grande parte dessa área era habitada pelos índios potiguaras,
povo de índole guerreira, e isso foi um complicador que atrasou em 11
anos a conquista do território.
Somente após 5 expedições, e com o apoio dos
índios tabajaras, os portugueses conseguiram
derrotar os potiguaras, expulsar os franceses e fundar a Cidade
Real de Nossa Senhora das Neves[1] no
dia 05 de agosto de 1585. A
Cidade de Nossa Senhora das Neves foi a terceira cidade fundada no Brasil do
século
XVI (1501-1600) após Salvador (1549) e Rio de Janeiro em 1565. Apesar
de derrotados os valentes potiguaras continuaram
a infernizar a vida dos habitantes da cidade até 1599 quando,
já sem apoio dos franceses que
lhes forneciam suprimentos e sob uma epidemia arrasadora
de varíola trazida
pelos colonos europeus, foram pressionados a assinar a paz com
o governador Feliciano Coelho de Carvalho e se retiraram para
o norte.
O marco zero de fundação
da cidade foi escolhido 18 Km acima da embocadura do Rio Paraíba,
numa colina que
domina todo o atracadouro na margem
direita
do Rio Sanhauá, afluente do Paraíba. Além
do cuidado com a defesa da povoação o local visava
facilitar o comércio e o apoio militar à
vizinha Capitania de Pernambuco. A povoação, por
estar sob domínio da União
Ibérica[2]
desde 1580, teve as primeiras ruas edificadas dentro de uma geometria
de traçados
regulares, como vemos na gravura abaixo, obedecendo aos padrões
encontrados nas demais colônias espanholas do continente
americano, o que diferia das povoações fundadas
pelos portugueses.
Aos interessados em saber detalhes
sobre a saga da fundação da cidade, disponibilizamos
o "Sumário
das Armadas", documento com 50 páginas apresentado
à Corte de Filipe II pelo jesuíta Cristovam de Gouvea,
Padre Visitador da Companhia de Jesus de toda a Província
do Brasil. O documento é uma verdadeira certidão de nascimento
da cidade.
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A partir do atracadouro
(embaixo à direita)
temos um aclive em direção à Ladeira
de São Francisco que foi a primeira rua da povoação
e servia como acesso ao largo formado pela Igreja Matriz
(M), Convento de Santo Antônio (L), Mosteiro de
São
Bento (G) e Igreja da Misericórdia (N).
Gravura de João Teixeira Albernaz I que ilustra
o "Livro
que Dá Razão
do Estado do Brasil" (Diogo Moreno, 1612) |
Como já foi
dito acima, a cidade foi fundada eminentemente com cunho administrativo-militar
para apoio ao pólo econômico gerado pela riqueza
da cana-de-açúcar
na Capitania de Pernambuco e garantia das terras do norte. A
característica
de séde
administrativa foi fator preponderante para que a cidade permanecesse,
durante
muito tempo, sem alterações estruturais exceto
pelas igrejas, conventos e fortificações militares
que simbolizavam o domínio da Casa Imperial.
A cidade manteve essa característica
durante todo o Brasil colônia e império, razão
pela qual a pecha de "cidade de funcionários
públicos" perdurou até a
metade do século
XX, com a implantação de indústrias através
da SUDENE, órgão governamental criado para fomentar
o desenvolvimento regional.
NOTAS
Não sou professor de
história, nem historiador. Apenas gosto de ler
e gosto de história. Inicialmente
eu pretendia contar sobre a conquista do território
e a fundação
da cidade. Entretanto, após visitas à Biblioteca
Pública Estadual, Instituto Histórico e Geográfico
Paraibano, bem como a leitura de livros adquiridos - e por empréstimo
- cada página analisada tem sido um estímulo à busca
por mais informações, culminando com a leitura
do material disponibilizado na WEB, cuja riqueza de dados e pluralidade
de documentos têm me auxiliado sobremaneira. Minha prioridade
tem sido, sobretudo, concatenar os dados das várias fontes
pesquisadas e procurar evitar contradições que,
não
raro, ocorrem dependendo da visão de quem escreve.
[1]
O uso da palavra "Real" aplicado à capitania
e à cidade
caracterizava o controle administrativo-militar e os investimentos
como responsabilidade
direta da Coroa Portuguesa, ao contrário das demais
capitanias onde os donatários bancavam e assumiam
os riscos da empreitada.
[2]
D. Sebastião foi o décimo-sexto
rei da segunda dinastia de Portugal. Morreu em 1578,
aos 24 anos e não deixou herdeiros. Assumiu seu tio-avô,
o Cardeal D. Henrique que morreu em 1580. Sem herdeiro direto à sucessão,
havia 3 netos do falecido D. Manoel I concorrendo ao trono português:
Catarina (Duquesa de Bragança), Antônio (Prior
do Crato) e
Filipe de Habsburgo (Filipe II da Espanha). # Graças a
muitas conspirações
e ao poderio político-militar espanhol, Filipe II da Espanha tornou-se
Felipe I de Portugal, unindo os dois reinos sob o Império
da União
Ibérica (1580-1640).
BIBLIOGRAFIA
GUIMARÃES, Luiz Hugo - A
conquista da Paraíba
Rio de Janeiro.Simpósios Momentos Fundadores da Formação
Nacional.2000
MELLO,
José Octávio de
Arruda - História
da Paraíba:
lutas e resistência
João Pessoa.A União.7ª Edição.2002
PASCHOA, Antônio Gonçalves
- Descripção
da cidade
e barra da Paraiba - 1630
João Pessoa.Revista do Instituto
Histórico
e Geográfico
Paraibano.3

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